Um roteiro pela vida e obra de Fernando Pessoa em Lisboa

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“Hommage à Pessoa”, escultura de Jean-Michel Folon

Para quem é falante da língua portuguesa, Fernando Pessoa dispensa apresentações. Mas quem não é português, ou brasileiro, pode não ter ouvido falar neste grande escritor e poeta português do século XX. Uma figura de certa forma excêntrica e enigmática, que usava heterônimos para assinar grande parte de sua obra. Aliás, foi através de Fernando Pessoa que passei a conhecer esse termo e a partir daí minha curiosidade por ele só aumentou.

Largo de São Carlos, Chiado

No último sábado antes de ser decretado Estado de Alerta em Portugal por conta do surto do novo Corona vírus, participei do percurso “Quando vejo esta Lisboa”, organizado pela Casa Fernando Pessoa. Eu nem imaginava que seria a minha última saída de lazer antes de ser recomendado o isolamento social.

A Casa Fernando Pessoa, localizada no bairro de Campo de Ourique, é a casa que foi habitada pelo escritor nos seus últimos 15 anos de vida e que hoje funciona como casa museu sobre a vida e a obra de Fernando Pessoa. Atualmente, encontra-se fechada para obras de remodelação, mas a sua programação continuava acontecendo e sendo divulgada em sua página.

O percurso “Quando vejo esta Lisboa” é um roteiro guiado pela vida e obra de Fernando Pessoa. O percurso é feito à pé e dura aproximadamente 90min, passando por pontos do Chiado e da Baixa, locais que fizeram parte do quotidiano de Fernando Pessoa.

“Quando vejo esta Lisboa”

Nosso passeio começou no Largo de São Carlos(1), em frente ao prédio, onde no 4º andar Fernando Pessoa nasceu em junho de 1888, e viveu até os seus cinco anos. Ainda em frente ao prédio encontra-se a escultura “Hommage à Pessoa”, uma homenagem ao poeta, do artista belga Jean-Michel Folon, que habita o Largo desde 2008.  

As duas funcionárias da Casa Fernando Pessoa que guiaram o nosso circuito Pessoano, explicou o sistema da visita. A cada ponto de parada, seria feita uma pequena explicação sobre o local e sua relação com Pessoa e ao final um participante do grupo era convidado a ler um pequeno trecho da obra do poeta.

Em seguida, seguimos para a Rua Garret no Chiado, para conhecer a igreja onde Pessoa foi batizado, a Basílica dos Mártires (2). Os sinos da igreja que ficam na mesma altura do apartamento onde Pessoa viveu no Largo de São Carlos marcou sua memória, estando presente em seus poemas.

Basília dos Mártires

A atual basílica foi construída no lugar em que D. Afonso Henriques, no ano de 1147, mandou construir uma ermida em memória dos “Mártires” que morreram na batalha pela conquista de Lisboa. Em 1755, a paróquia já era uma grande basílica, mas foi destruída pelo grande terremoto, sendo reconstruída em 1784.

Ao entrar na igreja,  pelo lado esquerdo, de imediato me impressiono com uma imponente porta dourada de ferro, onde vemos a inscrição “Nesta paróquia se administrou o primeiro batismo” (do lado direito) e  “Depois da tomada de Lisboa aos mouros no ano de 1147” (do lado esquerdo). A porta guarda a suntuosa pia batismal, onde Pessoa foi batizado. A igreja toda me impressiona pelo tamanho, pelas pinturas no teto, pela luz que entra pelos vitrais. É linda!

Seguimos em frente. A próxima parada é o café A Brasileira (3), local frequentado por Pessa e muitos jornalistas, escritores e artistas.

O estabelecimento abriu em 1905 como uma mercearia para venda de grãos de café que o dono trazia do Brasil. Um pouco depois, em 1908, o local foi remodelado e passou a funcionar como café, tornando-se cenário dos principais encontros literários da cidade. O local foi o berço da revista Orpheu, revista literária que teve Pessoa como um dos idealizadores juntamente com outros nomes das letras e artes da época (1915), tais como Almada Negreiros e Cortes-Rodrigues, por exemplo. A publicação revolucionária, por sua forma e estilo não comuns na época, teve curta duração, tendo sido publicadas apenas duas edições por falta de recursos financeiros.

Na calçada em frente ao café, fica a famosa e concorrida escultura de Fernando Pessoa. A escultura em bronze é obra do artista Lagoa Henriques e foi inaugurada na década de 80.

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To seat by this gentleman, and take a picture with him, you will probably have to wait your turn in a line of tourists like you, waiting to take a photo with Fernando Pessoa, the great Portuguese writer and poet. The bronze statue by sculptor Lagoa Henriques, inaugurated in the ’80s, lays on the terrace of Café A Brasileira, where Fernando Pessoa used to write. Anyone planning a visit to Lisbon should consider reading “Lisboa: What The Tourist Should See". This Lisbon guide, which was originally written in English by 1925 and translated to Portuguese later, when it was published, is a nice way to get started on Pessoa’s work. The book covers most of Lisbon attractions through the point of view of the writer. A nice choice for anyone looking for a little bit of inspiration for your Lisbon visit! 📷📚 PT- Para ter o privilégio de sentar-se ao lado deste cavalheiro e tirar uma foto com ele, você provavelmente terá de esperar sua vez numa fila de turistas que como você querem tirar uma foto com Fernando Pessoa, o grande poeta e escritor português. A estátua em bronze, do escultor Lagoa Henrique, inaugurada nos anos 80, fica na esplanada do Café A Brasileira, onde Pessoa frequentemente sentava para escrever. Se Lisboa está nos seus planos de viagem, ler “Lisboa: O que o turista deve ver” é uma boa maneira de se iniciar na obra de Pessoa. Este guia de Lisboa, escrito originalmente em inglês supostamente em 1925 e traduzido para o português mais tarde quando foi publicado, cobre a maior parte das atracões da cidade pelo ponto do autor. Uma boa escolha para quem busca um pouco de inspiração para sua viagem a Lisboa!

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Mas devido as obras de reestruturação do pavimento que estão a ocorrer nos passeios do Chiado, o acesso a escultura está fechado por grades e a estátua totalmente coberta.

Continuamos nosso percurso em direção ao Largo do Carmo(4). Aqui paramos em frente ao edifício onde nosso poeta viveu num quarto alugado entre 1910 e 1912. As janelas da divisão onde Pessoa viveu tem dois desenhos alusivos a figura do personagem de nosso tour. O Largo do Carmo é famoso pelas Ruínas do Carmo, a antiga Igreja que foi parcialmente destruída pelo grande terremoto de 1755.

Do Largo do Carmo seguimos até a Rua da Assunção, passando por ruas escondidas que ainda não conhecia. Lisboa tem sempre de suas surpresas. Descemos em direção a baixa Pombalina, passando pelo Elevador de Santa Justa e chegamos a Rua da Assunção, 42 (5)

No segundo andar, ficava a sede da Firma Félix, Valladas & Freitas, Lda., onde Fernando Pessoa trabalhou como tradutor de cartas comerciais. Foi aqui que ele conheceu o grande amor da sua vida, Ofélia Queirós, com quem teve um romance. Ofélia tinha apenas 19 anos e o seu namoro com Pessoa, já com 31 anos, não era bem visto por sua família. O relacionamento foi às escondidas e foram trocadas inúmeras cartas e bilhetes amorosos.

Seguimos então em direção à Rua da Prata, 71 (6), onde no 1.º andar localizava-se a sede da firma Moitinho de Almeida & Cia. Comissões, onde Fernando Pessoa trabalhou durante mais de uma década (de 1924 a 1935). Foi aqui que Pessoa escreveu grande parte dos textos de Álvaro de Campos numa máquina de escrever da marca “Royal”, que hoje faz parte do acervo da Casa Fernando Pessoa.  A firma foi a representante da Coca Cola em Portugal, quando esta começou a ser comercializada no país e Pessoa ficou responsável por inventar um slogan para a sua promoção. A frase “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” não foi bem vista pelas autoridades da época e  a bebida acabou sendo proibida em Portugal. Só voltando a ser comercializada após a queda da ditadura em 1977.

Continuamos pela Rua da Prata em direção a Praça do Comércio, onde paramos em frente ao Café Martinho da Arcada (7). Aqui descobri que este é o café mais antigo de Lisboa, tendo sido inaugurado em 1782 pelo Marquês do Pombal, ainda com outro nome. Fernando Pessoa era frequentador assíduo e usava o café como se fosse o seu escritório de fim de tarde. A mesa de mármore que ele costumava sentar-se continua preparada até hoje e acredita-se que foi nela que Pessoa escreveu grande parte dos poemas que compõe Mensagem e o Livro do Desassossego.

Ali da Praça do Comércio seguimos até a beira do Tejo e paramos no Cais das Colunas(8).

Cais das Colunas

O Cais das Colunas era um lugar onde Pessoa parava de vez em quando para observar o Tejo e refletir e meditar. No dia do nosso passeio, o Cais das Colunas estava mais uma vez movimentado. Com muitos turistas a tirar fotografias e músicos de rua fazendo suas performances. E foi aqui que nosso percurso pessoano terminou.

Foi uma manhã incrível! Mesmo quem já conhece bem a cidade será beneficiado ao conhecer a Lisboa pelos olhos de Fernando Pessoa e entender um pouco sua relação com a cidade.

Esse percurso é organizado regularmente pelo Serviço Educativo da Casa Fernando Pessoa. Além das duas funcionárias do serviço educativo que atuarem como guias, o passeio foi todo acompanhado por uma intérprete de Língua Gestual Portuguesa, tornando a visita acessível para deficientes auditivos.

https://goo.gl/maps/fjVgaoK4r31RGzFAA

Fiquem atentos à programação da Casa Fernando Pessoa, pois tem sempre muitas atividades acontecendo. Infelizmente, com a atual situação de pandemia do novo corona vírus as atividades de visitas estão suspensas. Mas a programação online continua e pode ser acompanhada na página oficial da Casa e também pelo Facebook!

Fiquem em casa e fiquem bem!

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